Cirurgia torácica marcada: o que fazer antes, quais exames são necessários e como se preparar para a internação
Ter a cirurgia agendada é, ao mesmo tempo, um alívio e o início de uma série de dúvidas práticas. O que preciso fazer antes? Quais exames ainda faltam? O que levo para o hospital? Posso tomar meu remédio no dia?
Este guia responde essas perguntas de forma direta, na ordem em que elas surgem.
Por que a preparação pré-operatória importa na cirurgia torácica
A preparação pré-operatória não é burocracia — ela existe para reduzir riscos reais. Cirurgias no tórax envolvem anestesia geral, manipulação pulmonar e, em muitos casos, internação de alguns dias. Identificar condições clínicas não controladas, ajustar medicamentos e preparar o organismo com antecedência reduz a probabilidade de complicações no intraoperatório e no pós-operatório.
O processo envolve, em geral, o cirurgião torácico, o anestesiologista e, quando necessário, o cardiologista e o pneumologista. Cada um contribui com uma parte da avaliação.
Exames pré-operatórios para cirurgia torácica
A lista exata depende do tipo de cirurgia, da idade do paciente e das condições clínicas associadas. O cirurgião e o anestesiologista definem o protocolo específico. Os exames abaixo representam o padrão mais comum.
Exames laboratoriais
- Hemograma completo
- Coagulograma: TP (tempo de protrombina) e TTPA
- Função renal: creatinina e ureia
- Função hepática: TGO, TGP, bilirrubinas
- Glicemia de jejum (e HbA1c em diabéticos)
- Tipagem sanguínea — especialmente em cirurgias de maior porte, para reserva de sangue se necessário
Avaliação cardiovascular
- Eletrocardiograma (ECG) — solicitado para praticamente todos os adultos
- Ecocardiograma — indicado quando há suspeita de doença cardíaca ou para estratificação de risco em pacientes acima de determinada idade ou com comorbidades
Avaliação da função pulmonar
A espirometria é frequentemente exigida antes de cirurgias torácicas que envolvem ressecção de tecido pulmonar. Ela mede o VEF1 (volume expiratório forçado no primeiro segundo) e a CVF (capacidade vital forçada), permitindo estimar a reserva pulmonar do paciente e o impacto esperado da cirurgia sobre a função respiratória. Avaliação da difusão de CO (DLCO) e ergoespirometria em casos mais completos
Exames de imagem
A tomografia computadorizada de tórax geralmente já está disponível como parte do diagnóstico que levou à indicação cirúrgica. O cirurgião avalia se ela ainda está dentro do prazo de validade ou se precisa ser atualizada.
Consulta com anestesiologista
A consulta pré-anestésica é obrigatória. O anestesiologista classifica o risco cirúrgico (classificação ASA), revisa todos os medicamentos em uso, faz perguntas sobre alergias, experiências anteriores com anestesia e condições clínicas relevantes. É nessa consulta que as orientações sobre jejum e medicamentos são formalizadas — e onde o paciente deve tirar todas as dúvidas sobre esse aspecto da cirurgia.
Cuidados e orientações antes da cirurgia
Jejum: quanto tempo e o que é permitido
A regra geral, alinhada com os protocolos modernos de recuperação acelerada (ACERTO/ERAS):
- Alimentos sólidos e leite: suspender 8 horas antes
- Líquidos claros (água, chá sem leite, suco sem polpa): permitidos até 2 horas antes da cirurgia, salvo orientação diferente do anestesiologista
- Nada por via oral nas 2 horas que antecedem o procedimento
Confirme o horário exato com a equipe, pois o protocolo pode variar conforme o hospital e o tipo de cirurgia.
Medicamentos: o que suspender, o que manter
Esta é uma das dúvidas mais frequentes — e a resposta depende de cada caso. A tabela abaixo oferece uma orientação geral; a decisão final é sempre do médico responsável.
| Classe | Orientação geral |
| Anticoagulantes (varfarina, rivaroxabana, apixabana) | Suspensão antecipada obrigatória — prazo varia conforme o medicamento (de 24h a 5 dias) |
| Antiagregantes (AAS, clopidogrel) | Geralmente suspensos 5 a 7 dias antes, salvo indicação cardiológica específica |
| Anti-inflamatórios (AINEs) | Suspender 5 a 7 dias antes pelo risco de sangramento |
| Anti-hipertensivos | Na maioria dos casos, manter — inclusive no dia da cirurgia, com pequeno gole de água |
| Antidiabéticos orais | Geralmente suspensos na véspera ou no dia — ajuste individualizado |
| Insulina | Ajuste de dose conforme orientação do endocrinologista ou cirurgião |
Regra prática: leve a lista completa de medicamentos para a consulta pré-anestésica e pergunte sobre cada um. Não suspenda nem mantenha nada por conta própria.
Tabagismo: parar antes da cirurgia faz diferença real
Parar de fumar entre 4 e 8 semanas antes da cirurgia reduz de forma documentada o risco de complicações pulmonares no pós-operatório — incluindo infecção respiratória, atelectasia e necessidade de suporte ventilatório prolongado. Mesmo parar poucos dias antes traz algum benefício na redução do monóxido de carbono no sangue. Se você fuma, informe o cirurgião na primeira consulta.
Preparo físico
Não há um protocolo universal, mas cirurgias torácicas se beneficiam de pacientes com melhor condicionamento respiratório. Caminhadas regulares e exercícios respiratórios simples (como o uso do espirômetro de incentivo, quando orientado previamente) podem contribuir para uma recuperação mais rápida. Evite atividades físicas intensas nos 2 a 3 dias que antecedem a cirurgia.