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Cirurgião Torácico em Goiânia

Pneumotórax e cirurgia: quando o tratamento vai além do dreno e o que esperar do procedimento

Publicado: 06/04/2026 Por: Alline Karolyne

Pneumotórax e cirurgia: quando o tratamento vai além do dreno e o que esperar do procedimento

Receber o diagnóstico de pneumotórax — ou vivenciar um episódio pela primeira vez — costuma ser assustador. A dor súbita no tórax, a falta de ar, a ida ao pronto-socorro. E depois vem a dúvida: isso vai precisar de cirurgia?

A resposta depende de fatores bem definidos. A maioria dos casos se resolve sem cirurgia. Mas há situações em que operar não é apenas uma opção — é a conduta correta.


O que é pneumotórax e por que ele pode ser uma emergência

Pneumotórax é o acúmulo de ar no espaço pleural — a cavidade entre o pulmão e a parede do tórax — que provoca colapso parcial ou total do pulmão afetado. Quando esse espaço, normalmente vazio, se enche de ar, o pulmão perde a capacidade de se expandir adequadamente.

Como o ar entra no espaço pleural

O ar pode vazar a partir do próprio pulmão (por uma ruptura na pleura visceral) ou entrar pelo exterior, em casos de trauma. Em qualquer cenário, o resultado é o mesmo: o pulmão colapsa na medida em que o ar se acumula.

Os tipos de pneumotórax que importam conhecer

TipoCausa principalPerfil de pacienteUrgência
Espontâneo primárioRuptura de blebs (bolhas subpleurais) sem doença pulmonar conhecidaJovens altos e magros, fumantesModerada — raramente emergência imediata
Espontâneo secundárioDoença pulmonar de base (DPOC, fibrose, tuberculose)Adultos com doença pulmonar préviaAlta — pulmão já comprometido tolera menos
TraumáticoTrauma torácico (acidente, fratura de costela, procedimento médico)Qualquer perfilVariável — pode ser grave
HipertensivoAcúmulo progressivo de ar sem saída (válvula unidirecional)Qualquer perfilEmergência — risco de vida imediato

Sintomas que indicam gravidade: quando ir ao pronto-socorro

Dor torácica súbita e falta de ar são os sintomas mais comuns. Procure atendimento de emergência imediatamente se houver: queda rápida da saturação de oxigênio, cianose (lábios ou dedos azulados), hipotensão, desvio da traqueia ou piora intensa e rápida da dispneia. Esses sinais podem indicar pneumotórax hipertensivo — uma emergência que exige descompressão imediata.


Nem todo pneumotórax precisa de cirurgia

Pneumotórax pequeno: quando o acompanhamento é suficiente

Um pneumotórax pequeno — com colapso pulmonar inferior a 20% e paciente estável, sem dispneia significativa — pode ser tratado com observação clínica, repouso e oxigênio suplementar. O ar é reabsorvido espontaneamente ao longo de dias a semanas. O paciente permanece internado ou em acompanhamento ambulatorial próximo, com radiografias seriadas para confirmar a reexpansão.

Drenagem torácica: o primeiro passo antes de pensar em cirurgia

Para pneumotórax moderados a grandes, o tratamento inicial é a drenagem torácica: a introdução de um dreno no espaço pleural para evacuar o ar e permitir que o pulmão se reexpanda. Em muitos casos, isso é suficiente. O dreno permanece até que a fuga de ar cesse e o pulmão se mantenha expandido — geralmente entre 2 e 5 dias.

O que define a falha do tratamento conservador

O tratamento com dreno é considerado falho quando:

  • A fuga de ar (fístula aérea) persiste por mais de 5 a 7 dias sem tendência de fechamento
  • O pulmão não reexpande adequadamente mesmo com drenagem funcionando
  • Há novo colapso após a retirada do dreno
  • O paciente apresenta instabilidade clínica apesar da drenagem

Nesses cenários, a cirurgia entra em cena.


Quando a cirurgia se torna necessária

Pneumotórax recorrente: quantos episódios justificam operar?

O pneumotórax espontâneo primário tem taxa de recorrência estimada entre 30% e 50% após o primeiro episódio tratado sem cirurgia. A partir do segundo episódio no mesmo lado, a maioria dos protocolos clínicos e das diretrizes da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica (SBCT) indica a cirurgia para prevenir novos episódios. Alguns serviços indicam já após o primeiro episódio em pacientes com fatores de risco elevado ou blebs visíveis na tomografia.

Fístula aérea persistente

Quando o pulmão não fecha sozinho após 5 a 7 dias de drenagem, a fístula aérea persistente é a principal indicação cirúrgica no contexto agudo. A espera prolongada aumenta o risco de infecção pleural e não melhora as chances de resolução espontânea.

Pneumotórax bilateral simultâneo

Pneumotórax nos dois pulmões ao mesmo tempo é raro, mas representa indicação cirúrgica pela gravidade do comprometimento respiratório.

Profissões de risco: pilotos e mergulhadores têm indicação diferente?

Sim. Para pilotos de aviação e mergulhadores profissionais, um único episódio de pneumotórax já pode ser indicação de cirurgia — mesmo sem recorrência. A variação de pressão atmosférica a que essas profissões expõem o organismo aumenta dramaticamente o risco de novo episódio em situações onde uma emergência pode ser fatal. A regulamentação da ANAC, por exemplo, exige avaliação específica para retorno às atividades de voo após pneumotórax.


Como é feita a cirurgia para pneumotórax

Videotoracoscopia (VATS): a abordagem preferencial

A cirurgia é realizada, na maior parte dos casos, por videotoracoscopia (VATS) — o mesmo acesso minimamente invasivo usado em outras cirurgias torácicas. Duas ou três pequenas incisões permitem a introdução de câmera e instrumentos. O cirurgião identifica os blebs e bolhas responsáveis pelo vazamento e os remove.

Ressecção de blebs e pleurodese

Os blebs são pequenas bolhas que se formam na superfície do pulmão, geralmente no ápice dos lobos superiores, e são a causa mais comum de pneumotórax espontâneo primário em jovens. O cirurgião os resseca (bullectomia) e, na sequência, realiza a pleurodese — um procedimento que provoca aderência entre a pleura visceral (do pulmão) e a pleura parietal (da parede do tórax), eliminando o espaço pleural e reduzindo significativamente o risco de recorrência.

A pleurodese pode ser mecânica (abrasão da pleura com gaze ou instrumento específico) ou química (aplicação de talco estéril). Ambas as técnicas têm eficácia estabelecida; a escolha depende da preferência do cirurgião e das características do caso.

Cirurgia aberta: quando a VATS não é suficiente

A toracotomia (cirurgia aberta) é reservada para casos com aderências pleurais extensas que impedem a videotoracoscopia, reoperações complexas ou situações em que a visualização por câmera é insuficiente para o procedimento necessário. É menos frequente, mas continua sendo uma opção segura e eficaz em mãos experientes.


Recuperação após a cirurgia de pneumotórax

Internação, dreno e alta hospitalar

Após a cirurgia por VATS, o dreno torácico permanece até que não haja mais fuga de ar e a drenagem seja mínima — geralmente 1 a 3 dias. A alta hospitalar ocorre em seguida, na maioria dos casos entre o segundo e o quarto dia de pós-operatório.

Retorno às atividades

  • Atividades leves e trabalho de escritório: 1 a 2 semanas
  • Esforço físico moderado: a partir de 3 a 4 semanas, com liberação progressiva
  • Atividades de alto impacto, mergulho ou voo: avaliação específica com o cirurgião — sem prazo padrão

A cirurgia elimina o risco de novo episódio?

Reduz substancialmente, mas não zera. A pleurodese associada à ressecção de blebs reduz a taxa de recorrência para menos de 5% na maioria das séries publicadas — contra 30–50% sem intervenção cirúrgica. Uma pequena probabilidade de recorrência permanece.


Tratamento cirúrgico de pneumotórax em Goiânia

Em Goiânia, o tratamento cirúrgico do pneumotórax é realizado por cirurgiões torácicos em hospitais com estrutura para videotoracoscopia e cuidados pós-operatórios adequados. O encaminhamento costuma partir do pronto-socorro, da pneumologia ou da cirurgia geral, dependendo do contexto do diagnóstico.

O que perguntar ao cirurgião torácico na avaliação

  • A minha tomografia mostra blebs? Em qual localização?
  • Qual técnica está planejada — VATS ou aberta?
  • Será feita pleurodese? Mecânica ou com talco?
  • Qual é o risco de recorrência após a cirurgia?
  • Quanto tempo até eu poder retomar atividade física intensa?

Perguntas frequentes

Pneumotórax pode matar?

O pneumotórax hipertensivo — em que o ar se acumula progressivamente sem saída, comprimindo o coração e os grandes vasos — é uma emergência com risco de vida se não tratado imediatamente. O pneumotórax espontâneo simples, em paciente jovem e saudável, raramente representa risco de morte quando tratado adequadamente. O risco depende do tipo, da extensão e da velocidade de progressão.

Posso viajar de avião depois de um pneumotórax?

Não imediatamente. A recomendação geral é aguardar pelo menos 2 semanas após a resolução completa do pneumotórax confirmada por imagem antes de voar — e só com liberação médica. A variação de pressão na cabine pode provocar expansão do ar residual e novo colapso pulmonar. Para pacientes que sofreram pneumotórax recorrente sem cirurgia, a avaliação deve ser individual.

O pneumotórax pode voltar mesmo após a cirurgia?

Sim, mas com probabilidade muito menor. A taxa de recorrência após cirurgia com pleurodese é inferior a 5% na maioria dos estudos, comparada a 30–50% após tratamento conservador no pneumotórax espontâneo primário. A recorrência, quando acontece, é investigada com atenção para identificar causas não tratadas na primeira cirurgia.


O pneumotórax assusta — e faz sentido que assuste. Mas a grande maioria dos casos tem tratamento bem definido, com ou sem cirurgia. Entender os critérios que orientam essa decisão ajuda o paciente a chegar à consulta com o cirurgião torácico fazendo as perguntas certas.

Alline Karolyne

Conteudo revisado por especialista.